Heitor Abreu
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A empregabilidade em um mundo exponencial

  • Foto do escritor: Heitor Abreu
    Heitor Abreu
  • 2 de abr. de 2024
  • 4 min de leitura


Quando eu era mais jovem, por volta de 1995, algumas pessoas diziam que era mais importante aprender mandarim do que inglês, pois a China iria dominar o mundo e todos falariam mandarim. É verdade que a China se transformou na 2ª potência econômica global e domina diversos mercados; porém, o idioma inglês continua sendo o mais importante do mundo[1].

A verdade é que ninguém sabe bem como o futuro global se comportará, nem mesmo no futuro próximo, e tenta adivinhar as coisas com uma probabilidade de acerto idêntica a acertar de que lado uma moeda cairá.

Nos dias em que vivemos, onde uma enxurrada de novidades na área tecnológica é anunciada pelas grandes corporações a cada semana, como se viu, por exemplo, o lançamento do Earth-2, um gêmeo digital do planeta Terra destinado a realizar simulações climáticas globais, e o Blackwell B200, uma nova GPU voltada para inteligências artificiais (IA), ambos pela Nvidia, predizer o futuro é cada vez mais arriscado.


Quando será lançado um chip mais poderoso do que o B200 ou quando será apresentada e por qual empresa, uma IA generativa mais potente do que o Chat GPT-4? De uma forma geral, não sabemos, apenas especulamos. Mas será mais rápido do que imaginamos, provavelmente... Os avanços, diferentemente do que ocorria no passado, trafegam pela escala exponencial, não mais linear.





E é essa falta de previsibilidade que nos conduz a diversos pontos de caos, de pura entropia, de desorganização, que escapam ao controle do Homo sapiens e podem impactar duramente em nossa forma de viver e enxergar o nosso mundo no curtíssimo prazo. 

Ultrapassamos um “ponto de não retorno” com as disrupções tecnológicas recentes, e estamos viajando em uma estrada cheia de curvas fechadas, em velocidades superiores àquelas as quais somos capazes de lidar com razoável segurança.

Um excessivo “otimismo tecnológico”, vindo dos grandes fabricantes de ativos tecnológicos, parece cegar nossa capacidade de compreender onde estamos nos metendo. Por exemplo, fabricantes de robôs e humanoides dizem que esses novos produtos serão “parceiros” dos trabalhadores de fábricas e de centros de distribuição.


Mas qual seria a lógica de um empresário investir uma soma considerável em ativos como esses e manter humanos, cujos postos de trabalho também custam ao empresário? É coerente, em termos de gestão empresarial, ele investir em algo que acarretará custos de compra e manutenção, que realiza as mesmas tarefas que humanos, só que de forma mais rápida, precisa e eficiente, e manter os dois na empresa? Não faz o menor sentido. Há, ao meu ver, um mascaramento de uma probabilidade robusta de ocorrer uma onda de desemprego exponencial, com consequências difíceis de se enxergar na névoa que cobre o futuro de curto prazo.


A tese de que outras revoluções, como a 1ª Revolução Industrial, viu esse mesmo cenário e conseguiu resolver o problema, é equivocada. Tanto a 1ª Revolução como as demais - ainda - trafegavam em um contexto forte (mas não exclusivo) de crescimento linear da tecnologia e da inovação, o que permitia acentuado, mas progressivo, desemprego e, simultaneamente, acentuado e progressivo crescimento de empregos, quase na mesma proporção. Havia, ainda, condições de se capacitar pessoas em curto espaço de tempo; afinal, as inovações não eram tão rápidas nem tão complexas (a capacitação educacional não era um grande obstáculo). Além disso, os empregos demoravam anos para sumirem (o mundo não era tão conectado como hoje) e serem criados em função de um “tempo” linear. Pode-se dizer que, grosso modo, as coisas podiam ser razoavelmente controladas. Havia tempo.


Hoje, as novidades tecnológicas são tão rápidas que mais parecem ondas e ondas gigantes de inovações e destruições tecnológicas que se amplificam a cada mês. Além disso, se comportam de forma exclusiva e fortemente exponencial em um mundo dito globalizado, altamente interligado e, portanto, extremamente competitivo, rápido e inovador, mas que tende à perda de controle de pontos importantes para a humanidade, dentre eles, a empregabilidade, afinal, quem está no comando dessa “Nau tecnológica” que viajamos no momento?

A grande “mágica” da tecnologia disruptiva que vivenciamos se mostra paradoxal: de um lado,  busca liberar o ser humano para atividades mais requintadas, elaboradas, menos insalubres e prazerosas; por outro lado, essa liberação acarretará mais gente disponível no mercado de trabalho (desempregados, mesmo que uma parcela deles temporariamente). Dessa premissa, surgem diversas incógnitas.

Precisaremos de tantos humanos para trabalhar quanto os disponíveis no mercado com o passar dos anos? Quem estará habilitado a trabalhos mais elaborados (como manutenção de robôs, criação de novos modelos de IA etc), com empresários dispostos a pagar seu alto custo e na rapidez que será necessária? E aqueles que não estiverem prontos (baixa escolaridade, por exemplo) para essa nova era, como capacitá-los em curtíssimo prazo em um mundo onde as mudanças são exponenciais? E enquanto estão sendo capacitados, de onde virá o sustento deles? Se virão de uma espécie de renda básica universal (RBU), quem pagará essa conta? Teremos que estabelecer cotas de IA e robôs nas empresas para solucionar esse problema? Pagaremos, como alguns defendem, pessoas para não trabalhar, por meio da RBU? E como fica a saúde mental de quem só recebe e não produz, não se sente útil, parte da sociedade? São contas que não fecham e perguntas que incomodam, as quais ainda não temos respostas, apenas uma vaga ideia, pois não sabemos como o futuro realmente se desenrolará. Mas precisamos, urgentemente, iniciar a discussão sobre esses assuntos.


Vivemos eventos tecnológicos que, definitivamente, nunca vivenciamos e não existe precedente histórico. É preciso admitir, com a humildade de quem ainda não tem respostas robustas, que precisamos nos debruçar sobre essas e muitas outras questões imediatamente. Nada contra as fantásticas tecnologias que temos ao nosso dispor; ao contrário, sou um fervoroso entusiasta delas. Mas precisamos estabelecer, urgentemente, como será essa relação com os Homo sapiens.


Nesse momento, seria muito saudável a humanidade parar, refletir e ser inovadora nas repostas aos reais problemas socioeconômicos que já estamos lidando e tendem a crescer exponencialmente. Seremos capazes de encontrar soluções efetivas para um mundo exponencial?



[1] Em termos de impacto socioeconômico e de relações comerciais.

 
 
 

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